Ocorreu vendo um pôr de sol
Nuvens gélidas,intocaveis...
De dominar-me a vontade de voar.
Uma vontade súbita.
Como se fosse possivel a mim.
Olhei para os cantos,olhei nos olhos.
Queria mesmo é voar.
Sentei-me.
Segurei a vontade como quem
Segura um copo de agua.
Bebi a água.
Fechei os olhos,marejados de desejo.
Nada resolvia.
Andei pela casa, coçei a cabeça.
Sondei a TV, tentei ouvir música.
Foi quando o vi, pelas grades da janela.
Ele parecia que sorria.
Leve,solto,asas entregues ao vento.
Era um pássaro.
Daqueles bem comuns e que todas as cidades têm.
O invejei, o odiei, queria mata-lo.
Como uma louca obcessão o admirava também.
Suas asas,sua inocência livre...
Foi então que rindo tragicamente notei:
Ele não sabia o dom que possuia.
Ele jamais saberia que podia voar.
Apenas voava.
Eu sabia, podia depois escrever um conto
Que em sonho eu havia voado
Podia inventar a sensação do vento em meu rosto
E aquele pássaro?
Ele jamais!
Nunca gargalhei tanto.
Mas depois chorei.
Quem sabe lá em cima alguém ria de mim.
De mim, de ti, de todos nós.